DREAMCAST

Em 1997 quando o Sega Saturn já amargava grande derrota frente ao Sony PlayStation e Nintendo 64 nos Estados Unidos e estava prestes a ser descontinuado, o presidente da Sega of America, Bernie Stolar, foi incumbido da responsabilidade de gerenciar o desenvolvimento de um console de nova geração da Sega. Para tal, duas equipes foram formadas: uma era liderada pelo pesquisador Tatsuo Yamamoto da IBM e a outra pelo engenheiro de hardware da Sega, Hideki Sato.

Hideki Sato escolheu a arquitetura do processador Hitachi SH4 e o processador gráfico Power VR2 para seu protótipo de codinome “Dural”. Já Yamamoto, também optou pelo Hitachi SH4 porém, com um processador gráfico 3dfx para seu projeto, que tinha o codinome “Black Belt”. A Sega optou inicialmente pelo projeto da 3dfx porém, acabou por escolher o projeto “Dural” de Sato com o Power VR2, que teve seu codinome mudado para “Katana”. Seu sistema operacional foi desenvolvido pela Microsoft por 2 anos trabalhando com a Sega, e consistia-se numa versão otimizada do Windows CE com DirectX. Finalizado o projeto, o videogame recebeu seu nome comercial definitivo: Dreamcast, em tradução literal, “Elenco dos Sonhos”, obviamente enaltecendo o hardware e a tecnologia do console frente ao mercado de videogames até então.

E o Dreamcast era sim, de longe, o console mais desenvolvido da época e tinha o objetivo de recuperar a hegemonia da Sega no mercado de videogames, perdida com o fracasso do Saturn frente aos concorrentes. A Sega sabia que chumbo grosso vinha de seus rivais e, pensando em conseguir ampla vantagem, começou a vender o console em 27/11/1998 no Japão – vendendo todas as 150.000 unidades no primeiro dia – nada menos que 15 meses antes do Playstation 2 da Sony, e 3 anos antes do Gamecube da Nintendo e Xbox da Microsoft. O lançamento nos Estados Unidos no dia 9 de setembro de 1999 foi um sucesso antecipado, com pre-orders de cerca de 300.000 unidades, alcançando mais de meio milhão de unidades vendidas em apenas duas semanas! Alguns dos jogos disponíveis no lançamento foram Soul Calibur, Sonic Adventure, Hydro Thunder e Power Stone e ajudaram o console a segurar-se no primeiro ano de mercado, junto com os games da Sega Sports, já que a Electronic Arts resolveu não lançar nada para o console de 6ª geração da Sega, principalmente por ver seus games para Saturn encalhados. No mercado europeu, o console conseguiu bom sucesso já a partir do seu lançamento, em 14 de outubro de 1999, pouco depois do lançamento oficial no Brasil, 4 dias antes, onde alcançou vendas de apenas 20.000 unidades, todas importadas do Japão pela Tec Toy, em 10 meses. O baixo desempenho no Brasil não era segredo: o custo do console era exorbitante!

Reconhecido como um console muito avançado quando lançado, o Dreamcast trazia como novidade um modem para conexão a Internet que variava entre de 33.6k e 56k, dependendo de onde o console era vendido. Aliado a um browser que acompanhava o console, era possível fazer uma conexão simples com a Internet, postar em forums, visitar sites e mandar emails. Se o proprietário do Dreamcast tivesse em mãos um teclado e mouse lançados oficialmente para o console, todo o processo tornava-se ainda mais fácil e do console você fazia uma máquina de conexão a Internet bem enxuta. O modem também possibilitava jogar alguns games online em servidores próprios, porém, eles foram aos poucos sendo desligados e muita gente não aproveitou essa funcionalidade. No Brasil, a Tec Toy resolveu vender o modem separadamente, o que convenhamos, é lastimável. Para os mais empolgados com a ideia de conexão a internet, havia um adaptador broadband para conexões de alta velocidade mas, esse acessório tornou-se artigo raro e caro em leilões pela internet, muitas vezes tendo um custo maior do que o próprio console... :P

O Dreamcast rodava games em uma mídia diferente, chamada GD-Rom, que tinha 1 giga de capacidade aproximadamente e tinham duas seções distintas de dados, uma que pode ser lida em qualquer CD-Rom de computador e trazia extras dos jogos em algumas ocasiões e outra que apenas o Dreamcast conseguia ler, que eram os dados do jogo. Como é tradicional no início, parecia não ser possível piratear seus jogos, porém, em pouco tempo (cerca de 1 ano e meio) um grupo chamado Utopia lançou um disco de boot que permitia que jogos gravados em CD-R fossem rodados sem grandes dificuldades.

Seus acessórios foram bem variados e estilosos! O Visual Memory Unit (VMU) original trazia uma pequena tela LCD onde era possível além de salvar os jogos, ver o status do cartão e inclusive curtir alguns jogos bem básicos feitos para ele, teclado e mouse eram utilizados para conexão a internet e uso em alguns jogos, vara de pesca, controles arcade, a Dreameye que era uma câmera que gravava vídeos e tirava fotos além de possibilitar videoconferência, karaokê completo, o PuruPuru pack que trazia vibrações ao controle, o já comentado e caro adaptador para conexão broadband, tapete para jogos de dança, a VGA Box que permitia conexão com a máxima qualidade de vídeo e algumas variações de pistolas para os poucos jogos de tiro do console. O joystick do Dreamcast tem uma boa pegada, botões acessíveis e funcionalidades e, apesar de criticado por muitos, ficou marcado pelo design moderno que influenciou joysticks de gerações posteriores.

Os modelos de Dreamcast variaram pouco e mais em suas cores do que em formato, normalmente em versões especiais de deteminados jogos. No modelo básico europeu, seu led era azul, ao contrário do resto do mundo no qual apresentava um led laranja. Algumas versões mudavam só a cor e seus nomes, como a Super Black, Pearl Pink, Pearl Blue, Metallic Silver e Gold. Uma versão Sega Sports na cor preta – assim como seus joysticks - foi lançada no mercado americano. No Japão apareceram versões como a edição de 10° aniversário do Sonic, duas edições que tinham até caixa diferenciada do Resident Evil Code Veronica, num vermelho translúcido da personagem Claire e o outro em preto com tema do grupo S.T.A.R.S., o Dreamcast rosa de Sakura Taisen e uma versão especialíssima e hoje rara da Hello Kitty, em versões azul ou rosa translúcidos, no qual acompanhavam o pacote um teclado, mouse, joysticks e VMU no mesmo estilo, além de um game trívia do personagem. Tinha até versões para empregados da Sega (Sonic 10th Anniversary Employe), uma que vinha com uma placa prateada com a assinatura do presidente da Sega (Sega Partner) e até uma versão especial de uma empresa japonesa chamada Mazora. Isso entre algumas outras versões comemorativas e especiais, que inclusive vocês podem conferir em fotos logo abaixo. O fato de ele ser pequeno e de fácil manipulação, fez com que muitas pessoas fizessem sua própria personalização do console em casa. Alguns tão bem elaborados, que chegam a ter um visual melhor que versões oficiais. :)

As mais exóticas versões do console são o Treamcast, criado por piratas de Hong Kong, que trazia uma tela LCD embutida ao console, reconhecia jogos de todas as regiões, tocava VCD e mp3 e vinha com controles do Saturn, porém, aceitava qualquer outro acessório da linha original ou de terceiros. Obviamente a Sega ficou fula da vida e conseguiu impedir a venda do console em alguns sites pela Internet mas, ele é ainda encontrado em leilões do eBay e em camelôs nas ruas de onde se originou. Sinistro, mas legal! ;D Por outro lado, sem dúvida a versão mais maluca do Dreamcast se chamava “Divers 2000 Dreamcase”, que trazia o console embutido em uma TV pra lá de estranha! Vinha com uma Dreameye embutida e portanto tinha capacidade de teleconferência, controle remoto, puru puru pack, teclado e modem. O CD era colocado em um compartimento em cima da TV que tinha ainda, para deixar o visual mais doido, duas antenas e algumas luzes laterais, apenas para dar um efeito visual diferente ao produto, um aspecto meio alienígena. :D Entrando na categoria de artigo raro para colecionadores, esse produto pode chegar a ter o custo de dois consoles da geração atual... o_O

BEM! Para tudo há um fim, e o Dreamcast infelizmente não pode sobreviver apenas por suas qualidades e variedade de seus jogos. Diante de um enorme prejuízo com as baixas vendas no importante mercado japonês, apesar das boas vendas nos Estados Unidos e Europa, o Dreamcast não pode resistir diante do esmagador concorrente vindo da Sony, o Playstation 2 que, além de ser tecnologicamente mais avançado, trazia a novidade do momento, o DVD, com capacidade 4 vezes maior que um simples GD-Rom de Dreamcast. Outro fator determinante foi o fraco apoio das principais software houses que pouco ou nenhum interesse mostraram no último console da Sega. A história poderia ser diferente se tais empresas tivessem fé no console, porém, na verdade ajudaram apenas a jogar a última pá de terra em cima dele, não dando o suporte necessário...até enterrá-lo de vez. :P

Em 31 de janeiro de 2001 a Sega anuncia o fim da produção do Dreamcast para março do mesmo ano. A alegação veio do próprio Bernie Stolar, agora já ex-presidente da Sega, afirmando que o futuro presidente da empresa à focaria apenas no desenvolvimento de games para diversos consoles. Muitos jogos que estavam para ser lançados, foram cancelados, porém, muitos foram lançados oficialmente anos após o término da produção do console, como Trigger Heart Exelica e Karous que foram lançados pela Sega do Japão em 2007. Outros porém, sequer foram lançados mas, obtiveram a luz do dia através de cópias desviadas e hackeadas, sendo distribuídas livremente pela internet, tendo como maiores exemplos os jogos Propeller Arena e Half-Life. Outros jogos homebrew e portanto, não licenciados, foram lançados com seu desenvolvimento feito através de um software chamado KallistiOS, que tem como maiores exemplos os jogos Last Hope, DUX e Wind and Water: Puzzle Battles. Ainda hoje jogos e emuladores continuam sendo a onda do Dreamcast.

Ficou além do enorme carinho pelo Dreamcast, daqueles que realmente curtiram e ainda curtem o console, a vontade e a esperança de sempre ver alguma novidade inesperada lançada pelos entusiastas desenvolvedores de jogos homebrew, com jogos, emuladores e aplicativos. Além disso, ficou o “carinhoso” apelido de “viúvas da Sega” para os mesmos mas, quem não tem um pouco de viúva ao relembrar o quão bom foi o Dreamcast?!? Eu tenho! \o/

Depois da geração do Playstation e Nintendo 64 eu acabei por deixar de lado um pouco os videogames e resolvi apreciar as opções de games no PC. Boa parte do que iria virar regra na indústria de games estava ali, rodando em computadores equipados com placas de vídeo “3dfx Voodoo”. Desse tempo guardo a boa lembrança da Voodoo 3500 que comprei para rodar o que havia de legal sendo lançado e demonstrado inúmeras vezes através de nosso amigo louco por games de PC, o Grimreaper do Seganet.

E nessa onda eu estava indo, longe dos videogames que pouco me interessavam e me dedicando exclusivamente as novidades que apareciam para o PC. A troca de informações com a galera via ICQ e fóruns era diária e as revistas de videogames já não acompanhavam o ritmo quase que instantâneo das novidades vindas da Internet. Aliado a isso, havia ainda que precariamente se comparado a hoje, a emulação de sistemas via PC. Enfim: eu tinha muito nas mãos via computador e pouco me interessava por outras opções de jogos que não estivessem sendo rodados nele ou através dele.

Nessa época o Dreamcast já estava no mercado e era frequentemente exaltado em suas qualidades pelo Ignarius (moderador do Seganet), que me enchia o saco via ICQ para que eu comprasse um para mim, com o argumento de que era muito bom, porque os jogos isso e aquilo...blá-blá-blá... :D Só que eu era convicto que nada era sequer parecido com o que eu tinha no PC! NADA! Dreamcast para mim, mesmo não o conhecendo, era lixo! Creio que esse foi um dos poucos momentos em que agi – e hoje vejo claramente isso – como um autêntico “ista”, vendo as qualidades apenas do que eu tinha em mãos e criticando severamente os defeitos de plataformas que eu sequer havia experimentado. Esse modo insano de ver os games e as diversas opções de sistemas e até fabricantes a serem seguidos ainda perdura em muitas pessoas mas, não mais em mim! :) Porém, naquela época isso acontecia e os debates eram constantes mas, sempre levando tudo com muito bom humor afinal, eramos amigos.

Até que um dia fui vencido pelo cansaço! :P De tanto o cara insistir, acabei por ver o Dreamcast como uma opção diferente do que eu tinha no PC e com qualidades que eu ainda não conhecia mas, já vislumbrava. Como trabalhava e não gastava com quase nada, acabei me convencendo de realmente comprar o console. Peguei uma carona com o Lantis que queria ver a novidade também e fomos comprá-lo, retornando logo em seguida à casa dele para não perdermos tempo.

Inicialmente por desconhecimento de sua biblioteca de jogos não vi nada demais mas, as coisas foram mudando gradativamente à medida que obtinha alguns jogos. Como vi igualmente nas gerações anteriores, havia muitos jogos bons, muitos medianos e uma grande leva de jogos realmente de ruins para péssimos! Aos poucos também fui explorando outras funcionalidades como a conexão discada com a Internet que, posteriormente, chegou até a quebrar uns galhos quando o PC por algum motivo não funcionava.

Fui melhorando o que eu tinha em mãos e, aproveitando melhor o console, me tornei um verdadeiro fã dele mas, sem exageros ou preferências. O Dreamcast foi o console que deu o “start” na minha paixão pelo hardware dos consoles e seria o primeiro de muitos adquiridos ou trocados que um dia viria a ser uma modestíssima coleção, sem grandes pretensões. Comecei a comprar acessórios para ele e o primeiro foi um teclado para facilitar a conexão com a Internet. Depois o vendi mas, senti falta e acabei comprando um novo, bem como um mouse! Logo comprei o jogo Seaman que veio com o microfone e que pouco utilizei, acabando por vender também.. :P Por necessidade afinal a jogatina era extensa, comprei alguns memory cards e um segundo controle.

Um dia cheguei a velha Progames, pouco antes de ela virar a locadora NEO e vi vários jogos do Dreamcast que, naqueles tempos, já tinha suas vendas encerradas pela Sega. Games originais, a maioria japoneses, sendo vendidos por preços que variavam de 10 a 15 reais geravam até uma certa tristeza mas, o que me chamou a atenção foi uma caixa que estava quase que escondida em cima de uma prateleira, próximo ao teto da pequena sala que guardava o acervo restante do último console oficial da Sega. Me aproximei e peguei a caixa de uma vara de pesca do console, fui até a bancada da locadora e questionei se estava a venda também. Na verdade não estava, pois haviam era esquecido aquele acessório ali a ponto de a funcionária ter que ir perguntar ao dono da loja se aquilo poderia ser vendido e por qual preço. Para minha sorte, podia...saí com a vara de pesca debaixo do braço, com caixa e tudo por cerca 30 reais. :)

Os anos se passaram, eu já tinha visto muita coisa de Dreamcast e outras opções foram surgindo. Gamecube, Playstation 2 e Xbox representavam a nova geração de consoles com games espetaculares. Buscava um Xbox mas, sempre faltava-me um pouco de dinheiro para comprar um. Foi nesse tempo que passei a pensar em vender o Dreamcast para angariar fundos. Cheguei a fazer algumas cotações online, via Seganet mas, além do pouco interesse diante do preço absurdo que eu estipulava para vendê-lo por completo, admito que o que impediu mesmo de me desfazer dele foi o fator emocional porque, na real, eu gosto MUITO do Dreamcast até hoje... :D Podem falar barbaridades dele por aí, até algumas são verdades absolutas, como a falta de um bom jogo de futebol mas, eu gosto do console e o considero como uma das melhores realizações em se falando de videogames até hoje, em todos os sentidos!

Não tem como separar-se assim de algo que tanto se gosta, não é mesmo? :) Por fim, a alguns anos, comprei o cabo s-vídeo do Ignarius que, depois de tanto torrar-me o sapato, inacreditavelmente, vendeu seu Dreamcast! ¬_¬ Azar o dele! Aproveitei bastante este acessório lá em casa, ligado a uma TV de 29 toneladas... :D Depois de vendê-la e comprar uma TV mais moderna, esse cabo ficou parado sem utilidade pois não há entrada s-video nela. :( Mas, depois de muito pesquisar, decidi comprar um multi VGA Box que permite o uso de s-video, transformando o sinal para a entrada RGB da TV. :) Novos reviews de Dreamcast, portanto, não podem nem irão faltar! ;)

by Luo=-_

Dreamcast Dreamcast Sega Sports (10.000 un.) Dreamcast R7 (2.000 un.)
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