Ainda hoje, algumas pessoas sabem o que é uma videolocadora. E provavelmente alguns donos de Playstation 3 ainda saibam o que é uma locadora de jogos. É óbvio que isso vai soar "velho" mas, no meu tempo, a única opção que tínhamos para conhecer jogos novos (note que digo jogos novos, e não lançamentos, porque os jogos eram novos pra nós, e não tão novos para o mercado) era a locadora de games.
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À princípio, as locadoras de filmes em VHS, criaram pequenas sessões dedicadas a cartuchos de Nes e Master System. Logo em seguida vieram os cartuchos de Mega Drive e Super Nes. E foi provavelmente nessa época que apareceram as primeiras locadoras exclusivamente dedicadas à videojogos. Comentarei um pouco do que me lembro dessa época de reservas, deslocamentos e locações. |
Haviam pessoas que no sábado de manhã, acordavam cedo para lidar com seus compromissos. Já eu, acordava cedo (por volta de nove horas da manhã, o que é cedo para um pré-adolescente) e de posse de meus trocados, angariados durante a semana, dirigia-me até a locadora na esperança de encontrar algum título que me interessasse. O motivo de acordar cedo no sábado era: "Alugo o jogo sábado de manhã e posso jogar até segunda de tarde, pouco antes de devolver". Quanto mais tempo, melhor.
Já havia sido uma novela convencer minha mãe a fazer o cadastro, que uma vez efetuado, permitir-me-ia a entrada em um novo mundo de possibilidades jogabilísticas. Tendo em vista que, na época, comprar jogos por mais "não originais" que fossem, não era lá muito barato. Enfim, sempre que possível, sábado de manhã eu ia até a locadora.
| Nos primórdios da locação de jogos de Nes, a locadora que eu conhecia dispunha apenas de um fichário preso num canto de uma parede com os nomes dos jogos, cada um numa fichinha de papel. Eu pegava a ficha, sem fazer a menor ideia de como seria o jogo (pois não havia sequer a caixa deste) e me dirigia até o balcão: "Quero este!". De posse do jogo, voltava pra casa e descobria ser aquela a oitava porcaria do mundo do videogame. Sim, na maioria das vezes, eu não gostava muito do jogo. Claro que em algumas vezes fui premiado com jogos excelentes como Castlevania ou Excitebike. Mas essas vezes foram mais raras. |
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Quando ousei – literalmente - ir mais longe, conheci outra locadora que utilizava o mesmo sistema de fichinhas sem a caixa do jogo, só que esta tinha um número consideravelmente maior de fichinhas. Passei algumas semanas indo nessa nova locadora. Chegava, dava uma conferida nas fichinhas e pegava o que mais me interessasse. Até que num belo dia eu resolvi olhar para o lado. Não sei como e nem porque, eu jamais havia atentado para o fato de que ao meu redor haviam prateleiras, e prateleiras essas que não eram de filmes, mas sim de MUITO MAIS JOGOS!
Como eu estava acostumado com a primeira locadora, que só tinha as fichinhas, achei que essa outra também trabalhava no mesmo "sistema", mas para meu espanto e surpresa haviam exatamente ao lado das fichinhas, três ou quatro prateleiras recheadas de jogos de todos os tipos! Todos com suas caixinhas e textos em inglês e fotos dos jogos e ilustrações e tudo mais. Um novo mundo se abria diante de meus olhos.
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Algum tempo depois, surgiram os cartuchos de sistemas mais potentes (Mega Drive e Super Nes) e a locadora dedicou todo um andar, somente para games. Caso o cliente não possuísse algum console, poderia ainda pagar uma certa quantia e jogar ali mesmo, por hora, o game que desejasse. Toda essa "cultura" de locação e jogo por hora, acabou gerando várias histórias que aconteceram ao longo do tempo. |
Como da vez que loquei Street Fighter 2 para Nes (um jogo simplesmente TERRÍVEL, mas que era Street Fighter 2, a coqueluche da época), vez essa em que sequer lembro de ter respirado enquanto voltava correndo para casa com o cartucho nas mãos. Chegando em casa dei um jeito de erguer a televisão, ligar meu controle arcade de Nes (que era maior que o próprio console), também na altura correta (sobre pilhas de enciclopédias) para criar o ambiente mais semelhante à uma máquina de fliperama. Somente para poder jogar aquela porcaria.
Ou da vez em que resolvi ir de bicicleta até a locadora, e voltando pela rua do ônibus, totalmente desatento (pensando somente no jogo, sequer notei a presença de outra pessoa) fiz uma conversão abrupta e derrubei o ciclista, de boca, no meio da rua. Não apanhei por sorte. Muitos amigos também adotaram o mesmo sistema de locação. Alguns mais cedo, outros mais tarde. Mas o certo era que praticamente todos eles faziam parte daquela "cultura".
Quem não tinha videogame, chamava alguém que tinha pra ir na locadora. Juntavam-se diversas pessoas para irem juntas e dividirem o preço de uma locação. Ia-se à pé, de ônibus, de carro (quando a mãe ou pai de alguém levava). Muita gente locou coisa boa e coisa ruim. Muitos enfrentaram dificuldades pelo caminho (teve amigo que locou o jogo e no caminho de casa perdeu o item para alguns meliantes). Muita história boa e muita história ruim. Mas histórias que marcaram uma época, que provavelmente não volta mais. |
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Hoje, as poucas locadoras que ainda existem, mantêm-se em apenas um nicho. Ou são locadoras de filmes (DVD e VHS) geralmente localizadas em regiões residenciais, ou alguma heroína da resistência, cuja especialidade ainda é games. Os aparelhos para jogatina cobrada por hora estão geralmente desligados. A rotatividade de pessoas é baixa e a maioria dos clientes leva para casa pouquíssimos jogos por mês. Nada comparado à “época de ouro”.
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Antigamente não existia internet, não existia lojinha de jogos piratas, não existia aquele amigo rico cheio de jogos (o amigo rico também só tinha 3 ou 4 jogos). Então foi assim, que no meu caso, pude conhecer a maioria dos jogos que hoje jogo em emuladores e que fazem com que eu me lembre desse tempo em que as coisas eram um pouco mais difíceis, mas que tinham muito mais valor. |
by Lantis

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